Foto: Breno Esaki/Jornal de Brasília
O primeiro gole de álcool foi aos 14 anos. A família só teve conhecimento de que o jovem consumia esse tipo de bebida quando ele tinha 16. Hoje, aos 17 anos, ele bebe com aval e companhia de parentes. Essa é a história de Felipe (nome fictício), mas caberia a vários adolescentes do País: dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SCB) indicam que 60,5% dos estudantes de 12 a 18 anos já consumiram álcool.
Adultos foram responsáveis pela primeira vez que Felipe consumiu bebida alcoólica. Segundo o jovem, tudo aconteceu durante uma competição esportiva em que, apesar da proibição da entrada desse tipo de produto, o acesso foi facilitado. Para ele, a principal motivação foi a influência de amigos.
Essa também é a causa apontada por 7,7% dos adolescentes em todo o mundo, segundo a SCB. O campeão de motivação, porém, é a curiosidade (18,5%), seguida por diversão e prazer (15,4%), por alívio do estresse diário (8%) e ansiedade e baixa autoestima (7,8%).
Os pais de Felipe souberam da iniciação do jovem ao álcool dois anos depois. “No ano passado, eu queria passar o réveillon com amigos, mas meus pais iam viajar. Aí eu disse que ficaria em Brasília e daria uma festa. Quando eles chegaram de viagem, me perguntaram se teve bebida, aí eu disse que sim”, conta. A mãe não gostou a princípio, mas acabou cedendo.
No círculo de amizades do estudante, quase todos bebem. “Um ou outro não bebe, muito por conta de remédios. Se não fosse por isso, todos beberiam”, afirma Felipe, que garante: bebe somente para se divertir. “Eu não espero ficar bêbado, é só para ficar de boa. Se fosse vício, teria problema, mas não é. Eu bebo quando tem festa, não é em todo fim de semana”, relata.
Um jovem a cada 2 dias
Os meninos continuam a consumir mais do que as garotas: de 2013 a 2016, 78% dos adolescentes que deram entrada ao Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) são homens de 12 a 18 anos. Ao todo, 756 jovens passaram pelo atendimento multiprofissional que é oferecido no espaço, para que possam ficar livres do álcool e de outras drogas. O dado mostra que, a cada dois dias, no período de 2013 a 2016, um adolescente chegou ao Caps.
De acordo com a gerente do centro, Naura Sachet, o problema é muito mais complexo: “O álcool é a porta de entrada para os jovens consumirem outras drogas ilícitas”, aponta. Segundo os dados da Secretaria de Saúde, 434 adolescentes afirmaram utilizar múltiplas drogas. A maconha é a que lidera a preferência entre a garotada na hora que está bebendo: 66% deles consomem maconha e álcool simultaneamente em uma saída.
“O uso exclusivo do álcool entre esses jovens é mínimo. Só 3% deles afirmaram que ingerem somente bebidas alcoólicas. Quando questionados se consomem outras drogas, a estatística aumenta: 69% ingerem o álcool e outro entorpecente. No geral, o perfil que temos é esse: eles usam sempre dois tipos de drogas”, expõe.
Prejuízos do consumo naturalizado
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o consumo de álcool excessivo no mundo é responsável por 2,5 milhões de mortes a cada ano. O percentual equivale a 4% de todos os óbitos no mundo, tornando-o mais letal que a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (Aids) e a tuberculose.
Pesquisadora da Sociedade Brasileira de Pediatria, Evelyn Eisenstein explica que a ingestão de bebidas alcoólicas traz prejuízos irreversíveis à saúde. Os sintomas variam entre demência, atraso no desenvolvimento mental, prejuízos acadêmicos e complicações biológicas, sociais, pessoais e emocionais. “O jovem pode ficar mais violento, propício a se envolver em acidentes. E tem também a Síndrome Alcoólica Fetal, que é quando as adolescentes gestantes deixam graves consequências ao recém- nascido”, alerta.
A SBP, assim como a OMS e a Organização Pan-Americana da Saúde, critica a influência das propagandas no consumo de álcool entre os jovens, que atuariam como estímulo. “Não podemos culpabilizar a família, pois o marketing sobre o consumo de álcool é pesado. As indústrias de bebidas alcóolicas são grandes grupos econômicos, que investem em propagandas em festas privadas, como as de calouros em universidades, e públicas, como Carnaval e São João”, afirma.
O consumo naturalizado das famílias também é apontado como gatilho. “Nas festinhas de aniversário é comum ter bebidas alcoólicas. A criança vê o pai e a mãe consumindo cerveja, e isso se torna um modelo referencial negativo. Também há o ritual da bebedeira, como se fosse a passagem da adolescência”, completa a pesquisadora.
A Lei 13.106 de 2015 determina que é proibido vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar, ainda que gratuitamente, bebida alcoólica a criança ou a adolescente. No entanto, não é difícil encontrar jovens que relatem a facilidade em comprar álcool. No DF, o decreto 29.446 de 2008, assinado pelo governador José Roberto Arruda, alterou para cem metros o perímetro de segurança escolar. Nessa área, é proibida a instalação de vendedores ambulantes e estabelecimentos que comercializem bebidas alcoólicas, cigarros e jogos.
A lei fica no papel, já que não existe controle. Ao percorrer escolas da capital, o Jornal de Brasília não teve dificuldade em encontrar bares próximos aos colégios. Um trio de adolescentes entrevistados pela reportagem, de 14 e 15 anos, afirmou que todos já consumiram bebida alcoólica nas proximidades das salas de aula. Inclusive, quando os professores liberam mais cedo, eles conseguem comprar as bebidas no comércio perto da escola e beber em praças.
“Já conseguimos comprar mesmo com uniforme”, relata um dos alunos de uma escola pública em Ceilândia. “As distribuidoras vendem, só mercado que não conseguimos”, conta. “Eles dizem que preferem vender, porque senão vão perder dinheiro. Lá na frente vai ter outro que quer vender”, aponta outra garota.
Durante o ano letivo, a Secretaria de Educação realiza o Programa Saúde na Escola, que busca fomentar atividades de prevenção do álcool e outras drogas. “Normalmente, a Unidade Básica de Saúde de referência da região e a escola planejam atividades necessárias para aquela escola, de maneira personalizada e que atenda os estudantes”, explica Eliene Moreira, diretora de Saúde e Assistência ao Estudante.
Além disso, o Batalhão Escolar da Polícia Militar promove atividades em três eixos nas escolas do DF: comunitário, preventivo e repressivo. “O comunitário é o contato com a comunidade. Participamos de reuniões para saber quais são as demandas. Temos o preventivo, que são as palestras, visitas nas escolas. E as ações repressivas envolvem abordagens dentro das escolas a pedido da direção ou com a autorização deles”, detalha a coordenadora de palestras do Batalhão Escolar, Receba Santos.
Ao todo, a PM atua em cerca de 1,2 mil escolas públicas e privadas da capital. No primeiro semestre deste ano, 356 ações repressivas aconteceram dentro das salas de aula, para combater o uso do álcool e também de drogas ilícitas. “O problema é que portar o álcool não é crime, então não temos um controle dos adolescentes que levam bebidas para escola. O crime está justamente na venda para os menores de idade, e o que observamos é que muitas escolas, principalmente as da periferia, têm um bar quase que na porta”, lamenta.
Fonte: Jornal de Brasilia






Nenhum comentário:
Postar um comentário